segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

O mundo busca modelos

Dom Anuar Battisti
Arcebispo de Maringá (PR)

Diante da necessidade de ser o melhor e o maior, o mais bonito, o mais charmoso, o mais admirado, o mais sexy, o mais elegante, enfim, o mais em tudo, os tempos atuais nos levam a contemplar  exageros na malhação do corpo, na busca de regimes e até ariscando a própria vida.
Já assistimos vários fatos de jovens que morrem, não por falta de alimentos, mas  sim por pura vaidade, em nome da elegância e do modelo típico convencionado pelos atores da moda. Modelos criados para servir ao puro império do consumo, vidas humanas colocadas fora da liberdade e da dignidade de seres racionais, visando unicamente bens materiais.
A sociedade moderna perdeu a dimensão sobrenatural da vida humana, do direito de viver e conquistar a felicidade com dignidade, sem ser escravo das coisas. Quanta coisa, coisificando até o ser humano! A vida humana  já não tem valor. O que dizer então da natureza? O “tanto faz como tanto fez” se tornou norma; o fazer por fazer, o gozar a vida e aproveitar tudo hoje; o pensamento de que a vida acaba tudo aqui nesta terra, se torna lei suprema para muitos. A perda da esperança de um mundo melhor leva ao puro relativismo da vida presente e da vida futura.
Hoje recordamos uma menina de quinze anos, nascida e criada em um povoado no interior da Palestina, lugarejo que não constava no roteiro das viagens da época. Foi naquela vila, sem importância, que Deus escolheu a Mariazinha da casa de Joaquim e Ana para ser a Mãe Daquele que mudou a história e o rumo da humanidade. O modelo de Deus não vem do centro de poder, dos lugares importantes e mais visitados. Uma jovem de aproximadamente quinze anos, não tendo certeza de nada, a não ser a obediência, é chamada, escolhida para ser mãe, Daquele que esperamos celebrar em breve o Seu aniversário.
Somos convidados a equacionar o tipo de resposta que damos aos desafios de Deus. Ao propor-nos o exemplo de Maria de Nazaré, a festa litúrgica daquela que foi concebida sem mácula, hoje convida-nos a acolher, com um coração aberto e disponível, os planos de Deus para nós e para o mundo. O texto do evangelista Lucas apresenta a resposta de Maria ao plano de Deus. Ao contrário de Adão e Eva, Maria rejeitou o orgulho, o egoísmo e a autossuficiência e preferiu conformar a sua vida, de forma total e radical, com os planos de Deus. Do seu “sim” total, resultou a salvação e vida plena para ela e para o mundo. “Eis aqui a serva do Senhor faça-se em mim a Tua vontade” (Lc 1, 38). Na Bíblia ser “servo do Senhor” é um título de glória, reservado àqueles que Deus escolheu, que Ele reservou para o seu serviço e que El e enviou ao mundo com uma missão. Desta forma, Maria reconhece que Deus a escolheu, aceita com disponibilidade essa escolha e manifesta a sua disposição de cumprir, com fidelidade, o projeto de Deus.
Maria responde com um “sim” total e incondicional. Ela tinha o seu programa de vida, seus projetos pessoais, mas, todos passaram naturalmente e sem dramas a um plano secundário.
Na atitude de Maria não há qualquer sinal de egoísmo, de comodismo, de orgulho, mas há uma entrega total nas mãos de Deus. O testemunho de Maria é um testemunho, um modelo que nos questiona fortemente. Maria de Nazaré foi uma mulher para quem Deus ocupava o primeiro lugar, uma pessoa de oração e de fé, que fez a experiência do encontro pessoal com Deus. O Mundo está morrendo, porque esqueceu dos verdadeiros exemplos, modelos, como o da Mariazinha de Nazaré.
Fonte: CNBB

sábado, 4 de janeiro de 2014

A combinação israelense de eficiência e fuzuê

“Paradoxo, ó Israel, este é teu santo sobrenome”. Esse lamento deveria, mas não foi, ter sido incluído no Tehilim, livro de emocionantes salmos escrito três mil anos atrás pelo terceiro rei do povo de Israel, David (embora diga-se que também outros derramaram seus versos por ali). Ele serviria, sem dúvida, como um belo slogan a ser estampado em pôsteres afixados nas repartições públicas israelenses.
Como em todo órgão público que se preze, nos daqui há as maquininhas de senha manual, às vezes de várias cores, indicando diferentes tipo de serviço prestados ali. Existe o sensor eletrônico, muitas vezes com voz, para que os desavisados não percam a chamada. Mas ninguém senta para esperar. As cadeiras, isso também sempre há, estão vazias, enquanto todo mundo perambula pelo saguão, falante e ligeiro. Procuram, isso já constatei, a possibilidade de darem uma “perguntadinha básica” ao atendente sem ter que esperar sua vez. Todos sabem que os israelenses que estão do outro lado do guichê fazendo seu serviço não vão, de jeito e maneira, dar canja. Mesmo assim, insistem. Depois da óbvia negativa, sem nenhuma mágoa voltam a entabular conversas animadas entre si, não ouvem a chamada da senha, quando percebem vão discutir com o atendente, o circo é armado. É um padrão por aqui.
Desavisados feito eu, que lentamente vão desbravando as repartições públicas nacionais, ficam de orelha e cabelo em pé. Afinal, estou fazendo errado em ficar sentada esperando a minha vez? Ainda não sei a resposta.
Minha primeira experiência em uma repartição pública local foi na madrugada em que cheguei a Israel. Eu e outros “olim chadashim” – os novos imigrantes dessa Terra Santa – fomos desastradamente resgatados, às duas da manhã, por uma funcionária sonolenta e visivelmente mal-humorada. Dois atendentes rapidamente nos ajudaram a preencher formulários e, uma hora depois, saímos de lá com nossas carteiras de identidade nas mãos. Depois disso, enfrentei a Secretaria da Educação, com outras mães ansiosas que não entendiam uma palavra de hebraico e precisavam descobrir como matricular seus filhos nas escolas (que, em sua arrasadora maioria, são públicas). O atendimento foi muito bom, mas antes tivemos que descobrir em que sala estava a secretária responsável pelo assunto – ainda não entendi como pode ser que os funcionários não tenham uma mesa fixa ali.
Todo mundo sabe onde você mora, porque há um papelzinho branco que deve ficar sempre junto de sua carteira de identidade. Você precisa providenciar esse negócio com urgência – sem ele, você praticamente não existe. Para isso você vai até o Ministério do Interior, uma atendente rapidamente o imprime e entrega, mediante a apresentação de seu contrato de locação ou comprovação de propriedade. Fui até lá preparada para enfrentar horas de fila e saí, sorridente, em menos de cinco minutos, mesmo que um tanto magoada com a grossura da jovem senhora que me atendeu. Meses depois, quando fui no mesmo lugar providenciar meu passaporte, a história foi outra: uma fila descomunal, duas horas de espera, mas, de novo, cinco minutos sentada na frente da atendente. Uma semana depois, estava com o passaporte na mão.
Para transferir minha carteira de motorista, tive que ir até um shopping center decadente no subúrbio de Netanya. Não teria encontrado se não tivesse ido para lá de carona com uma amiga que já manjava se deslocar por aqui. Havia uma fila de umas 50 pessoas e passei duas eternas horas sentada ali, esperando. Mas então, em cinco minutos, entabulei uma conversa sem pé nem cabeça com uma atendente que, com um ar bastante sinistro, carimbou um monte de folhas e me mandou procurar uma autoescola.

E ultimamente, chegada a hora de entender como funcionam taxas e impostos daqueles que suam para ganhar seu dinheirinho, foi a vez de conversar com um contador. Tamanha a burocracia, as exceções, as regras e os que tais que o pobre nem se deu ao trabalho de explicar. Apenas me recomendou voltar a falar com ele quando tivesse uma renda razoável entrando na minha pobre conta bancária. Antes disso, me mandou ir ao Mas Hachnassa (Autoridade de Imposto de Renda), outro órgão público, para que eu pudesse emitir um documento que me possibilitará receber dinheiro de pequenos serviços que presto por daqui. Daí, de novo, fui com a expectativa de trombar com uma fila monstruosa, uma atendente com perguntas incompreensíveis e aquele bando de gente vagando pelo saguão. Não encontrei nada disso, com exceção, óbvia, dos perambulantes usuais. Na minha hora, sentei-me frente uma linda e gripada etíope, que em cinco minutos imprimiu os documentos que precisava e me deu a feliz notícia que tenho ainda um bom limite pela frente para faturar até ter que começar a pagar impostos feito gente grande.
E esse é um dos megaparadoxos daqui: tanta bagunça e tanta eficiência ao mesmo tempo. Com todas as informações da sua pessoa na tela do computador, a coisa fica muito ágil, e a falta de papas na língua do israelense não deixa que o atendimento se prolongue. Amo isso, amo, amo. Ah, e quanto ao papo dos perambulantes com pulga no traseiro, descoberta importante, agora que entendo o que eles falam: não tem nada a ver com o que estavam fazendo ali. Temperatura, Irã, o trânsito e o preço do supermercado estavam entre os principais temas, assuntos tão envolventes e inadiáveis que impreterivelmente os fazem perder a chamada da senha. O que não parece ser para eles de todo mal – afinal, conquistam assim, e agora sem paradoxo algum, uma oportunidade que para um israelense é imperdível: a de, novamente, armar o maior fuzuê.

Miriam Sanger

Fonte: Conexão Israel

quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

Vaticano divulga vídeo histórico por ocasião dos 50 anos do Inter Mirifica

Imagens gravadas há mais de cinquenta anos dos momentos da Assembleia Conciliar do Vaticano II foram divulgadas pela Filmoteca Vaticana. O arquivo traz fotos e vídeos da promulgação do Decreto Inter Mirifica sobre os Meios de Comunicação Social, assinado pelo papa Paulo VI, em 4 de dezembro de 1963.
Uma página criada na internet pelo Pontifício Conselho para as Comunicações Sociais, traduzida para cinco idiomas, celebra estes 50 anos do histórico documento e mostra as imagens em vídeo da aprovação do decreto. É possível conferir, também, fotos da sala conciliar e textos que contam a trajetória do Decreto. Para ver os conteúdos basta acessar: www.intermirifica50.va
No site em português há um vídeo com a participação do arcebispo do Rio de Janeiro (RJ), dom Orani João Tempesta, que explica o Decreto Inter Mirifica e sua importância na vida da Igreja. “Este documento pode ser considerado um divisor de águas em relação à comunicação social. Foi a primeira vez que um Concílio Ecumênico da Igreja abordou essa temática da comunicação, indispensável para a ação pastoral, abrindo caminhos para reflexões nesta área”, recorda dom Orani.
Sobre o Decreto
A delegada da Filmoteca Vaticana, Claudia Di Giovanni, explicou que o dia 4 de dezembro de 1963, marcou uma etapa fundamental nas relações entre a Igreja e os meios de comunicação. “A sessão pública do segundo período do Concílio Vaticano II foi fechada e o voto do Decreto sobre os meios de comunicação Social, Inter mirifica, foi feito”, disse Di Giovanni.
O Decreto foi aprovado com uma grande diferença de votos: 1960 a favor e 164 contra. Antes da votação final de 1963, o documento foi muito criticado porque se argumentava que não tivesse a dignidade de um documento conciliar. O texto inicial foi reduzido de 114 para 24 parágrafos, de Constituição passou a ser Decreto Conciliar.
Fonte: Rádio Vaticano